Géis de lactato: a próxima revolução no ciclismo está sendo preparada na Espanha
Durante a última década, o ciclismo profissional, e os esportes de resistência em geral, levaram ao limite tudo o que diz respeito à nutrição durante a corrida. As equipes aprenderam a treinar o intestino para absorver quantidades de carboidratos que há alguns anos pareciam impossíveis e hoje é comum ver corredores consumindo mais de 120 gramas por hora nas grandes voltas. Agora, um grupo de pesquisadores espanhóis acredita que o próximo grande avanço pode vir por uma via completamente diferente. Sua proposta se chama ExoLactate e consiste em algo que até pouco tempo atrás parecia impossível: ingerir lactato em forma de gel durante a competição.
ExoLactate, o gel espanhol que quer abrir uma nova era na nutrição do ciclismo
Por trás do ExoLactate estão o fisiologista Aitor Viribay, uma das referências internacionais em nutrição aplicada a esportes de resistência, Dani Lasa, responsável durante anos pela experimentação gastronômica de Mugaritz, e Juan Carlos Arboleya, doutor em bioquímica física e pesquisador do Basque Culinary Center. Juntos, desenvolveram uma tecnologia que busca levar à prática uma ideia que há décadas desperta interesse entre fisiologistas e cientistas do exercício: utilizar lactato exógeno como fonte de energia durante o esforço.
A apresentação pública do projeto ocorreu há alguns dias durante o evento “89 Gramas”, organizado pela revista científica Fissac em Barcelona. Tanto El País quanto Revista Corredor, dois dos meios presentes no encontro, destacaram o enorme interesse que despertou o ExoLactate entre treinadores, nutricionistas, pesquisadores e profissionais vinculados ao esporte de alto rendimento.
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A mudança de paradigma por trás do ExoLactate
Para entender por que o ExoLactate está gerando tanta expectativa, é necessário compreender como mudou a visão científica sobre o lactato.
Durante décadas, foi considerado um subproduto associado à fadiga muscular. No entanto, a pesquisa moderna demonstrou que desempenha um papel muito mais complexo. O lactato atua como combustível para diferentes tecidos do organismo e participa ativamente da regulação metabólica durante o exercício.
Viribay defende essa visão há anos. De fato, recentemente explicou que uma parte importante das estratégias nutricionais atuais baseadas em elevadas quantidades de glicose e frutose tem como objetivo final aumentar a produção interna de lactato, que posteriormente será utilizado pelas mitocôndrias para gerar energia.
A pergunta que os responsáveis pelo ExoLactate levantam é simples. Se o organismo busca produzir lactato para utilizá-lo como combustível, o que aconteceria se pudesse recebê-lo diretamente do exterior?
A barreira que ficou meio século sem ser resolvida
A utilização de lactato exógeno não é uma ideia nova. Pesquisadores como George Brooks, um dos grandes referentes mundiais nesse campo, estudam suas aplicações fisiológicas há décadas.
O verdadeiro problema sempre foi tecnológico. Embora existissem formulações experimentais, nenhuma havia conseguido fornecer quantidades suficientes de lactato de forma prática, estável e agradável para o atleta.
Segundo explicaram seus desenvolvedores durante a apresentação, o ExoLactate resolve esse obstáculo por meio de uma tecnologia própria de encapsulamento que permite administrar doses relevantes em formatos semelhantes aos géis energéticos utilizados habitualmente por ciclistas e corredores.
A capacidade de fornecer entre 15 e 25 gramas de lactato por hora é precisamente um dos aspectos que diferencia o ExoLactate de tentativas anteriores e um dos pilares sobre os quais se sustenta a patente desenvolvida pela equipe espanhola.
Uma via energética diferente dos carboidratos
Um dos argumentos mais interessantes que os pesquisadores apresentam diz respeito à absorção intestinal.
Atualmente, o principal limite para aumentar a energia disponível durante uma competição não é a quantidade de combustível que um ciclista transporta, mas a capacidade do organismo para absorvê-lo. Os carboidratos dependem de transportadores específicos que acabam se saturando quando as quantidades são muito elevadas.
O lactato utiliza outros mecanismos de transporte, conhecidos como MCT. Segundo a hipótese de trabalho defendida pelos responsáveis pelo ExoLactate, isso permitiria utilizar uma via complementar à glicose e à frutose, aumentando potencialmente a disponibilidade total de energia durante o exercício sem depender exclusivamente dos transportadores tradicionais.
Em outras palavras, não se trataria de substituir os carboidratos atuais, mas de adicionar uma nova ferramenta nutricional ao arsenal dos atletas de resistência.

ExoLactate já saiu do laboratório
Outro dos aspectos destacados durante a apresentação foi que o ExoLactate já foi utilizado fora de ambientes experimentais.
Segundo explicaram seus responsáveis, o produto foi testado por atletas de alto nível em situações reais de treinamento e competição, incluindo ciclistas e especialistas em provas de resistência de longa duração.
Por enquanto, não foram publicados estudos científicos completos que permitam quantificar com precisão seu impacto sobre o desempenho, portanto, ainda será necessário acumular evidências independentes antes de tirar conclusões definitivas. No entanto, o fato de que o projeto tenha avançado do laboratório para os testes em competição é um dos motivos que explicam o interesse que está despertando dentro do setor.
Será a próxima revolução nutricional do ciclismo?
A aparição do ExoLactate coincide com um momento em que conceitos como durabilidade, otimização energética e resistência à fadiga ocupam uma posição central dentro do desempenho esportivo.
Durante anos, a evolução da nutrição no ciclismo foi marcada pela capacidade de ingerir e absorver cada vez mais carboidratos. O ExoLactate propõe uma abordagem diferente. Não busca aumentar a quantidade de glicose ou frutose disponível, mas fornecer diretamente uma molécula que o próprio organismo utiliza continuamente durante o exercício.
Resta saber até onde chega seu impacto real e se os resultados iniciais se confirmam em futuros estudos e competições. Mas, pela primeira vez, uma tecnologia desenvolvida inteiramente na Espanha parece ter encontrado uma forma prática de transportar o lactato exógeno dos laboratórios para os bolsos das camisetas.
Se acabar cumprindo as expectativas geradas em torno de seu lançamento, o ExoLactate pode se tornar uma das inovações mais notáveis que a nutrição esportiva viu nos últimos anos.