Qual é o esporte de resistência mais difícil do mundo? Uma análise com milhares de atletas compara o ciclismo, a corrida e o esqui cross-country
A pergunta gera décadas de debates entre corredores, ciclistas, esquiadores e triatletas. Qual esporte de resistência é realmente o mais duro? Agora, um análise liderada pelo bicampeão olímpico de triatlo Alistair Brownlee tentou respondê-la utilizando dados reais de milhares de atletas e centenas de milhares de sessões registradas com dispositivos esportivos.
O esporte de resistência mais duro não é tão fácil de apontar como parece
O estudo, realizado através da plataforma Terra, analisou nove modalidades distintas: corrida, ciclismo de estrada, ciclismo indoor, esqui cross-country, esqui alpino, caminhada, marcha, esqui de travessia e natação em águas abertas. O objetivo não era determinar qual é o esporte mais técnico, perigoso ou mentalmente exigente, mas identificar qual submete o sistema cardiovascular a uma maior demanda durante uma sessão habitual.
Os resultados são claros em um primeiro aspecto: correr é a atividade que mantém as pulsações mais elevadas e sustentadas. Os corredores registraram uma frequência cardíaca média de 145 batimentos por minuto, a mais alta de todas as disciplinas analisadas, além de alcançar também os picos máximos mais elevados.
Segundo Brownlee, a diferença se mantém mesmo quando se comparam atletas que praticam várias disciplinas. Entre os usuários que registravam tanto sessões de corrida quanto de ciclismo, 93% mostravam intensidades cardiovasculares superiores quando corriam.
O ciclismo perde em intensidade, mas ganha em duração
RECOMENDADO
INEOS continua se transformando: sai o CEO e Brailsford assume o controle
Commoção no gravel após a morte de Stéphane Goyard durante um evento na França
Faz sentido o atual limite UCI para o peso das bicicletas?
Treinamento com restrição do fluxo sanguíneo: promessas, evidências e dúvidas da nova tendência
Evie Richards sofreu uma concussão em Nove Mesto e sua recuperação passa a ser a prioridade
Terremoto no WorldTour: um dos cérebros da Visma vai para a Lidl-Trek a poucas semanas do Tour
No entanto, a conclusão muda quando se introduz uma variável chave para qualquer atleta de resistência: o tempo.
Enquanto a sessão média de corrida durou 41 minutos, a sessão média de ciclismo ao ar livre alcançou 64 minutos. A caminhada superou as duas horas e o esqui alpino também rondou os 129 minutos.
Ao combinar intensidade e duração para calcular a carga cardiovascular total, o ranking se transforma completamente. A corrida deixa de ocupar a primeira posição e disciplinas como o esqui cross-country, o ciclismo ou até mesmo a caminhada passam a gerar uma carga fisiológica igual ou superior durante uma sessão completa.
Para Brownlee, essa diferença explica por que é tão difícil responder de forma definitiva à pergunta. Tudo depende de se se mede o esforço por minuto ou a carga acumulada durante toda a atividade.
O ciclismo indoor surpreende
Outro dos achados mais chamativos do estudo afeta diretamente os ciclistas. O ciclismo indoor registrou uma frequência cardíaca média nove batimentos superior à do ciclismo ao ar livre. A explicação é simples: no rolo não existem descidas, semáforos, tráfego, curvas ou momentos de descanso em que as pulsações possam baixar.
De fato, quando se analisa a capacidade de manter um esforço constante perto da frequência cardíaca máxima, o ciclismo indoor aparece praticamente empatado com a corrida e muito à frente do ciclismo de estrada.
E qual ganha finalmente?
A resposta depende da metodologia utilizada.
Se se analisa apenas a intensidade cardiovascular por minuto, a corrida é a clara vencedora. Nenhuma outra disciplina alcança pulsações médias tão altas nem mantém durante tanto tempo porcentagens tão elevadas da frequência cardíaca máxima.
No entanto, quando os pesquisadores aplicaram modelos mais avançados de carga de treinamento, como o sistema TRIMP utilizado habitualmente em fisiologia do esporte, o resultado mudou novamente. Nesse cenário, o esqui cross-country apareceu como a disciplina mais exigente, seguido muito de perto pela corrida, enquanto o ciclismo ocupou as seguintes posições.
Além do debate sobre qual é o esporte mais duro, o trabalho deixa uma conclusão interessante para os ciclistas. Correr exige uma resposta cardiovascular mais intensa e sustentada, mas o ciclismo permite acumular durante mais tempo uma elevada carga fisiológica com menor impacto muscular e articular.
Por isso, muitos treinadores utilizam a corrida como complemento para melhorar a condição física geral, enquanto o ciclismo continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para desenvolver grandes volumes de treinamento e resistência aeróbica.
Em outras palavras, se a pergunta é qual esporte faz o coração trabalhar mais minuto a minuto, a resposta parece ser a corrida. Mas se se fala de carga total de treinamento, a discussão continua completamente aberta.