Uma Canyon 2021 com espigão telescópico: o que há por trás das bicicletas azuis da Shimano?
Há momentos nas competições de ciclismo em que a corrida se transforma em pura sobrevivência. Não importa o nível do ciclista ou o orçamento da equipe. Um furo na hora errada pode mudar tudo. Foi exatamente isso que aconteceu com Tadej Pogačar na última edição de Roubaix, quando, a mais de 120 quilômetros da chegada, ele ficou parado no meio do pavé, sem nenhum carro da equipe por perto. Por alguns segundos, o esloveno passou de candidato ao título a ciclista completamente isolado no caos da corrida. Até que apareceu um dos carros azuis da Shimano.
A bicicleta azul que salvou Pogačar em Roubaix: veja como funciona o sistema menos conhecido do pelotão
No caso de Pogacar, a troca foi imediata. Um mecânico tirou uma bicicleta do teto, entregou-a a ele e o empurrou de volta à corrida. Pogacar pedalou cerca de 5 quilômetros nessa bicicleta completamente anônima, azul, sem marcas visíveis. Uma cena que se repete poucas vezes, mas que sempre deixa a mesma pergunta no ar: que bicicleta é realmente essa e até que ponto ela pode influenciar uma corrida.

Durante décadas, o serviço de assistência neutra no ciclismo profissional esteve associado aos carros amarelos da Mavic. Eles faziam parte da paisagem do pelotão e protagonizaram algumas das cenas mais icônicas do ciclismo moderno. No entanto, em 2021, a Shimano assumiu esse papel no Tour de France, expandindo progressivamente sua presença para o restante do calendário até se tornar o fornecedor habitual em provas de alto nível da UCI.
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A chegada da Shimano representou uma evolução na forma de entender esse serviço, adaptando-o a um pelotão cada vez mais complexo do ponto de vista técnico.
Em declarações ao meio de comunicação belga Sporza, Servais Knaven, responsável pelo serviço neutro no Benelux e na França, explica que esse momento não tem nada de improvisado. Antes de cada corrida, os mecânicos elaboram listas completas com informações detalhadas sobre os ciclistas. Não apenas qual grupo eles utilizam, mas também o tipo de pedais, os freios ou configurações específicas de cada bicicleta. O objetivo é que, quando chegar a hora, eles possam identificar rapidamente qual opção é a mais adequada entre o material disponível.
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Qual é o modelo da bicicleta azul da Shimano?
A Shimano não fabrica quadros e mantém deliberadamente em segredo a origem das bicicletas que utiliza em seu serviço neutro. Durante anos, foi possível identificar modelos da marca francesa Origine sob a pintura azul graças aos códigos de homologação da UCI. No entanto, o que se viu em Roubaix aponta para uma mudança nessa estratégia.
Pelo que se pode deduzir das imagens, e no que vários meios de comunicação concordam, é que, pelas formas, ele se assemelha a uma Canyon Ultimate de gerações anteriores, aproximadamente de 2020 ou 2021. Não se trata de uma informação confirmada oficialmente pela Shimano, mas sim de uma conclusão consistente.
Por que essas bicicletas não são modernas (e nem querem ser)
À primeira vista, a bicicleta azul da Shimano parece mais simples. Cabos visíveis, soluções menos integradas e um design que se afasta das tendências atuais. Mas isso não é uma limitação, e sim uma decisão técnica deliberada.
O próprio Knaven explicou na Sporza um dos pontos-chave: o uso de espigões telescópicos. Esse sistema permite que o ciclista ajuste a altura do selim durante a corrida sem precisar de ferramentas, algo fundamental quando se trata de uma bicicleta que não está configurada sob medida. No entanto, essa solução obriga ao uso de espigões redondos, o que limita enormemente o tipo de quadros que podem ser utilizados, já que a maioria das bicicletas modernas usa designs proprietários e integrados.
Essa condição define completamente o conceito dessas bicicletas. Elas não foram concebidas para serem as mais rápidas nem as mais leves, mas para serem as mais adaptáveis. Em uma situação de emergência, a prioridade não é o desempenho absoluto, mas a capacidade de oferecer uma solução imediata e funcional.
Como o serviço é realmente gerenciado durante a corrida
Por trás de cada carro azul há muito mais do que apenas algumas bicicletas. Cada veículo transporta várias unidades em diferentes tamanhos e configurações, além de diversos tipos de pedais para garantir a compatibilidade com a maioria do pelotão. A escolha certa depende de segundos e da capacidade do mecânico de identificar o ciclista e suas necessidades.

Esse trabalho começa dias antes da corrida. As equipes da Shimano entram em contato com as equipes de corrida para coletar informações detalhadas e se antecipar a possíveis cenários. Elas se preparam até mesmo para casos específicos, como ciclistas que utilizam equipamentos não padronizados ou protótipos.
Além disso, a logística é muito mais ampla do que parece de fora. Não se trata apenas de um carro, mas de uma estrutura completa que inclui vários veículos na corrida, motos com rodas sobressalentes e pontos intermediários de assistência. Em uma prova como Roubaix, onde os trechos de pavé fragmentam constantemente a corrida, essa rede é fundamental para garantir que haja sempre uma solução por perto.
Uma bicicleta para não ficar para trás
O que aconteceu com Pogačar em Roubaix resume perfeitamente a função dessas bicicletas. Elas não foram projetadas para vencer corridas, nem para oferecer o mesmo desempenho que uma bicicleta de equipe. Elas foram concebidas para evitar que um problema mecânico o tire da corrida em questão de segundos.
Durante aqueles quilômetros na bicicleta azul, Pogacar não estava em condições de igualdade, mas continuava na corrida. E em uma prova como a Paris-Roubaix, onde tudo pode mudar a qualquer momento, é exatamente isso que faz a diferença.