Um juiz autorizou os testes antidoping noturnos a Pogacar e Vingegaard: só são permitidos diante de "suspeitas fundamentadas"
A polêmica gerada pelos controles antidoping realizados de madrugada a Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard durante o Tour de France 2026 deu uma reviravolta importante. Se inicialmente apenas se sabia que ambos haviam sido acordados no meio da noite para se submeter a um controle, agora L’Équipe revelou que a atuação foi autorizada previamente por um juiz francês, um procedimento excepcional que somente pode ser aplicado quando se cumprem requisitos legais muito rigorosos.
Os controles antidoping a Pogacar e Vingegaard ativaram um procedimento judicial que quase nunca é utilizado
Segundo o jornal francês, a International Testing Agency (ITA) solicitou autorização ao Tribunal Judicial de Paris para poder realizar esses controles durante a noite de 18 a 19 de julho. O pedido foi aceito por um juiz de liberdades e de detenção, uma figura judicial competente para autorizar esse tipo de atuações extraordinárias.

Uma medida excepcional que raramente é utilizada
A própria L’Équipe aponta que esse mecanismo legal é extremamente incomum. De fato, uma fonte do âmbito antidoping consultada pelo periódico francês afirma que poderia ser até mesmo a primeira vez que essas disposições, incorporadas à legislação francesa em 2015, são aplicadas.
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A autorização judicial também não implica que Pogacar ou Vingegaard tenham cometido uma infração antidoping. O próprio jornal ressalta que não foi divulgada a informação apresentada pela ITA para justificar o pedido.
No entanto, o regulamento deixa claro que não basta uma suspeita genérica.
O artigo L.232-14-4 do Código Esportivo francês, citado por L’Équipe, estabelece que um juiz só pode autorizar controles antidoping noturnos quando determinadas circunstâncias estão presentes.
Traduzido para o espanhol, o texto exige a existência de:
“suspeitas fundamentadas e consistentes de uma infração das normas antidoping e um risco de que as provas possam desaparecer se o controle não for realizado imediatamente”.
Além disso, a legislação francesa acrescenta outra garantia para proteger os direitos do atleta. O mesmo artigo estabelece que essas atuações devem respeitar: “uma estrita proporcionalidade entre a violação dos direitos do atleta e os objetivos da luta contra o doping”.
Esses objetivos, lembra a norma, são a proteção da igualdade na competição e da saúde dos próprios atletas.

Por que realizar controles de madrugada?
Embora do ponto de vista esportivo acordar um corredor poucas horas antes de uma etapa de montanha seja muito controverso, o motivo tem uma explicação técnica amplamente conhecida na luta antidoping.
Os controles noturnos permitem aumentar as possibilidades de detectar substâncias que desaparecem rapidamente do organismo, especialmente quando são administradas em quantidades muito pequenas.
Um dos exemplos mais citados pelos especialistas são as microdoses de EPO. Um atleta que administrasse uma pequena quantidade durante a noite poderia eliminar boa parte dos marcadores antes de um controle convencional realizado muitas horas depois. Uma análise realizada de madrugada reduz consideravelmente essa janela e dificulta esse tipo de estratégias.
Precisamente por essa capacidade de detectar métodos de doping especialmente sofisticados, esse tipo de inspeções é reservado para situações consideradas de maior risco.
A Promotoria confirma o pedido da ITA
A Promotoria de Paris confirmou a L’Équipe que a ITA apresentou formalmente o pedido para realizar os controles durante a noite.
Segundo explicou o Ministério Público ao jornal francês, os departamentos de saúde pública dos tribunais de Paris e Marselha mantêm contatos habituais com a UCI e a ITA antes do Tour de France. Neste caso específico, a agência internacional recorreu ao procedimento previsto no artigo L.232-14-4 para obter a autorização judicial necessária.
Os controles noturnos fazem parte do amplo dispositivo antidoping desplegado durante este Tour de France, coordenado pela International Testing Agency.
Antes mesmo do início da corrida, já haviam sido realizados mais de 360 controles fora de competição, com um operativo formado por mais de 40 agentes deslocados ao Tour e a previsão de coletar cerca de 600 amostras durante as três semanas de competição.
A ITA já havia advertido antes do início da corrida que os controles poderiam ser realizados a qualquer hora do dia ou da noite, sempre dentro de uma estratégia de controles dirigida por meio de análises de riscos e informações de inteligência.
A novidade conhecida agora é que, pelo menos no caso de Pogacar e Vingegaard, esses controles noturnos não foram simplesmente uma decisão operacional da agência, mas que requereram a autorização expressa de um juiz francês após avaliar que se cumpriam as exigências previstas pela legislação do país.