O polêmico "passaporte de potência" já está em andamento: a Visma e outras quatro equipes participam do teste antidoping
Os dados de potência já estão chegando aos organismos antidopagem. A Agência Internacional de Controles (ITA) confirmou que cerca de 60 corredores de cinco equipes profissionais, entre elas Visma Lease a Bike, participam do ensaio que estuda a criação de um “passaporte de potência” para complementar os controles antidopagem no ciclismo.
Os dados de potência antidopagem podem acabar sendo obrigatórios para todos os profissionais
Há apenas cinco meses, o projeto gerou uma forte oposição dentro do pelotão profissional. Adam Hansen, presidente da Associação de Ciclistas Profissionais (CPA), afirmava então que os corredores estavam “100% contra” que os dados de potência pudessem se tornar uma nova ferramenta dentro da luta antidopagem.
Agora, aquela proposta já deu um passo a mais. A Agência Internacional de Controles (ITA) confirmou que cinco equipes profissionais participam ativamente do estudo que analisa se os dados de potência podem ser utilizados para complementar os sistemas atuais de controle antidopagem. Entre elas figura uma das equipes mais importantes do pelotão, Visma Lease a Bike.
Visma, Decathlon, Jayco, Picnic e Cofidis já fazem parte do projeto
Segundo informou a própria ITA, cerca de 60 corredores pertencentes a Visma Lease a Bike, Jayco AlUla, Picnic PostNL, Decathlon CMA CGM e Cofidis estão participando deste programa de pesquisa de dois anos de duração.
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Além disso, Uno-X Mobility, Tudor Pro Cycling Team e TotalEnergies já aprovaram os marcos de participação e podem se incorporar plenamente ao projeto em breve, enquanto continuam as conversas com outras equipes.
O estudo está sendo desenvolvido em conjunto com a Universidade de Kent e o University College London para determinar se os dados de potência podem fornecer informações úteis aos sistemas antidopagem atuais, incluindo o passaporte biológico.
Não busca detectar positivos, mas identificar padrões suspeitos
Desde a ITA insistem que o objetivo não é sancionar corredores a partir de seus watts nem transformar os dados de potência em um teste antidopagem direto.
No comunicado oficial publicado esta semana, o organismo explica:
“Seu propósito não é estabelecer infrações das normas antidopagem por meio dos dados de desempenho, mas avaliar se determinados padrões ou evoluções do desempenho poderiam, no futuro, ajudar a orientar estratégias de controles específicos, decisões sobre conservação de amostras, análises adicionais de laboratório ou investigações”.
A filosofia é similar à do passaporte biológico: observar a evolução de um atleta durante longos períodos de tempo para detectar comportamentos que mereçam uma investigação mais profunda.
A ITA também explicou que o sistema estará centrado principalmente nos dados coletados durante as competições e que a análise estudará como evoluem os desempenhos de cada corredor ao longo dos anos.
Primeira fase com dados históricos
O projeto ainda se encontra em uma fase preliminar. Durante o primeiro ano, os pesquisadores estão analisando dados históricos dos corredores para verificar se é possível construir um modelo confiável.
Somente se os resultados forem suficientemente sólidos, passará para uma segunda fase utilizando dados em tempo real das temporadas atuais.
Os pesquisadores estão estudando questões tão complexas como as diferenças entre medidores de potência, erros de calibração, especialização dos corredores, dinâmicas de corrida ou a relação entre os dados de treinamento e competição.
Um dos conceitos centrais do estudo são as denominadas “atuações excedentes” (excess performances), ou seja, desempenhos que se afastam da evolução esperada de um corredor quando comparados com atletas de características e idades similares.
A ITA defende o projeto
Benjamin Cohen, diretor geral da ITA, defendeu esta semana a iniciativa e lembrou que os dados de potência fazem parte do debate antidopagem no ciclismo há anos.
“Os dados de potência fazem parte da conversa no ciclismo há muitos anos. São uma das ferramentas de desempenho mais utilizadas neste esporte, mas até agora sua potencial contribuição à luta antidopagem mal foi explorada”.
Cohen acrescentou: “Graças ao compromisso dos corredores, das equipes e de especialistas reconhecidos, agora temos a oportunidade de avaliar esse potencial por meio de um processo científico estruturado e determinar se pode complementar de forma significativa as ferramentas antidopagem no futuro”.
Um projeto que continua gerando rejeição entre os corredores
A confirmação de que várias equipes já participam do ensaio chega apenas alguns meses depois das duras críticas feitas por Adam Hansen no podcast Domestique Hotseat.
Então, o presidente da CPA foi categórico:
“A posição da CPA é muito clara: estamos 100% contra isso e também os corredores”.
Hansen questionava especialmente o que aconteceria quando um corredor não pudesse entregar seus dados por falhas técnicas, erros de sincronização ou problemas com os dispositivos, além de alertar sobre a dificuldade de interpretar os dados de potência de forma isolada em um esporte onde intervêm múltiplos fatores fisiológicos e de treinamento.
Por enquanto, a ITA insiste que se trata apenas de um estudo científico de viabilidade. No entanto, o próprio organismo reconhece que, se os resultados forem satisfatórios e posteriormente receberem a aprovação da UCI, o regulamento poderá ser modificado para tornar obrigatória a entrega de dados de potência por parte de todos os ciclistas profissionais masculinos.
O que há alguns meses parecia uma proposta teórica já está sendo testada com corredores do WorldTour. A questão agora é se esses milhões de dados gerados pelos medidores de potência acabarão se tornando uma nova peça do sistema antidopagem do ciclismo profissional.
Primeira fase com dados históricos