O caminho do lactato exógeno até o Tour: um fracasso inicial e uma ciência ainda a ser comprovada

Nutrição 05/08/26 07:21 Migue A.

O uso de lactato exógeno por parte da UAE Team Emirates-XRG durante o Tour de France 2026 tem sido uma das novidades nutricionais mais comentadas do ano. No entanto, essa aposta não nasceu há alguns meses. De fato, a equipe de Tadej Pogačar já havia tentado desenvolver um produto similar anos atrás, embora aquele primeiro experimento tenha sido descartado após não oferecer os resultados esperados.

Antes do Tour de France, a UAE já havia testado o lactato exógeno... e o experimento acabou em uma gaveta

Segundo revelou The Times, a UAE trabalhou em 2022 com uma formulação baseada em polilactato combinada com uma elevada quantidade de carboidratos. O objetivo era o mesmo que persegue o produto atual: aproveitar o lactato como uma fonte adicional de energia para otimizar o desempenho em esforços de longa duração e reservar uma maior quantidade de glicogênio para os momentos decisivos da corrida.

Os testes realizados sobre a bicicleta, no entanto, não convenceram a equipe. A concentração de lactato que aquela bebida fornecia era baixa demais para produzir um efeito apreciável e, além disso, o sabor resultou tão pouco agradável que os próprios corredores rejeitaram utilizá-la. Com essas limitações, o projeto foi deixado de lado e a UAE continuou recorrendo às estratégias nutricionais convencionais.¿Está Pogacar utilizando géis de lactato no Tour de France?

Quatro anos depois, o lactato volta ao Tour

O fracasso daquele primeiro intento não significou o fim das investigações. Durante os últimos anos, diferentes empresas e grupos científicos têm continuado a trabalhar para resolver um dos grandes problemas do lactato exógeno: conseguir uma formulação estável, com uma concentração suficiente e que possa ser consumida durante uma competição de máxima exigência.

Esse trabalho resultou este ano no produto desenvolvido pela Enervit junto à UAE Team Emirates-XRG, utilizado publicamente pela primeira vez durante o Tour de France. Segundo explicou a própria companhia italiana, a bebida empregada pela equipe continha 90 gramas de carboidratos, 10 gramas de lactato sódico e vitamina B1, uma formulação que foi utilizada apenas em etapas muito específicas e não de maneira sistemática durante toda a corrida.

A própria estratégia da equipe deixa entrever que continua tratando-se de um produto em fase de validação, reservado para jornadas específicas nas quais consideram que pode trazer um benefício adicional.Confirmado: Pogacar está tomando produtos com lactato no Tour de France

Muita expectativa... mas ainda poucas evidências científicas

A irrupção do lactato exógeno gerou uma enorme expectativa dentro do ciclismo profissional, embora a evidência científica disponível continue sendo limitada.

A hipótese sobre seus possíveis benefícios não é nova. Desde os anos noventa, investigações como as desenvolvidas pelo fisiologista George Brooks demonstraram que o lactato não é apenas um produto associado à fadiga, mas também um combustível que pode ser reutilizado por músculos, coração e até mesmo pelo cérebro. Essa teoria, conhecida como Lactate Shuttle, lançou as bases para tentar administrar lactato de forma exógena durante o exercício.

No entanto, transferir essa ideia para um suplemento realmente eficaz tem se mostrado muito mais complicado. Até hoje, os ensaios realizados em atletas continuam sendo uma pequena amostra e ainda não há uma evidência sólida que demonstre melhorias consistentes do desempenho em competição.

O possível benefício poderia ser outro

Embora inicialmente o interesse tenha se concentrado em um possível aumento do desempenho, algumas das hipóteses mais recentes apontam que o principal benefício poderia estar relacionado à fadiga central.

Diversos trabalhos demonstraram que o cérebro pode utilizar lactato como combustível e que essa molécula também desempenha funções de sinalização celular, embora ainda não existam estudos suficientes para confirmar que sua administração exógena reduza de forma consistente a percepção do esforço durante o exercício.

Por enquanto, essa hipótese precisa ser confirmada com estudos de maior qualidade e realizados em situações reais de competição. Enquanto isso, o lactato exógeno continua sendo uma das linhas de investigação mais promissoras da nutrição esportiva, mas também uma das que mais perguntas ainda mantém sem resposta.

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Der Weg des exogenen Laktats bis zur Tour: ein anfänglicher Misserfolg und eine Wissenschaft, die noch zu beweisen ist