A altitude poderia ocultar um novo sistema de doping quase indetectável, segundo o novo livro de James Witts

Autoestrada 25/07/26 10:36 Migue A.

O jornalista britânico James Witts acaba de publicar um novo livro que promete se tornar uma das obras mais controversas sobre o doping no esporte moderno. Sob o título Dope: How Drugs Changed Sport (Dope: Como as drogas mudaram o esporte), o autor propõe uma reflexão sobre a evolução das práticas dopantes e sustenta uma teoria especialmente chamativa sobre o ciclismo profissional atual.

James Witts reabre o debate sobre o doping no ciclismo em seu novo livro

No momento, o livro só está disponível em inglês, mas as primeiras declarações de Witts já geraram um intenso debate entre aficionados e especialistas.

A teoria da “coartada da altitude”

Um dos conceitos mais chamativos que Witts desenvolve é o denominado “Altitude Alibi” ou “coartada da altitude”.

treinamento altitude

Segundo explica no trecho do podcast The Roadman Cycling Podcast, os habituais treinamentos em altitude das equipes WorldTour poderiam oferecer uma cobertura perfeita para ocultar determinadas práticas de doping por meio de microdoses de EPO, um método que seria extremamente difícil de detectar com o atual passaporte biológico.

O raciocínio parte de um fato conhecido: a estadia em altitude provoca um aumento natural do hematócrito e da produção de glóbulos vermelhos, exatamente o mesmo efeito fisiológico que persegue a EPO.

Witts lembra que o passaporte biológico não detecta diretamente substâncias dopantes, mas monitora a evolução dos valores sanguíneos de cada corredor e busca desvios em relação ao seu perfil habitual. No entanto, durante uma concentração em altitude, essas mudanças são precisamente as que o sistema espera encontrar.

dope

Sua hipótese é que alguns corredores poderiam aproveitar essa circunstância para administrar microdoses de EPO, fazendo com que o aumento dos parâmetros sanguíneos parecesse simplesmente uma consequência do treinamento em altitude.

Em palavras do jornalista, a concentração em altitude deixaria de ser apenas uma preparação fisiológica para se tornar uma “coartada” que dificultaria distinguir uma adaptação natural de uma manipulação artificial.

Treinar forte sem assumir o custo da altitude

Witts também explica que os treinamentos em altitude sempre implicam um compromisso.

Se um ciclista dorme e treina em altitude, obtém uma maior adaptação fisiológica, mas a menor disponibilidade de oxigênio limita a intensidade dos treinamentos. Por outro lado, se dorme em altitude, mas desce de altitude para realizar as sessões mais exigentes, pode manter uma maior qualidade de treinamento, embora perca parte do benefício hematológico.

Sua teoria sustenta que, recorrendo a microdoses de EPO, um corredor poderia manter elevados seus valores sanguíneos sem depender completamente do estímulo da altitude, permitindo-lhe treinar em máxima intensidade enquanto o passaporte biológico interpretaria essas mudanças como uma resposta fisiológica esperada.

É importante ressaltar que essa explicação corresponde a uma hipótese proposta por James Witts em seu livro e no trecho do podcast. O autor não apresenta provas públicas que demonstrem que essa prática esteja ocorrendo de forma generalizada no pelotão profissional.

“A ausência de positivos não significa ausência de culpados”

Em uma entrevista concedida ao BikeRadar, Witts insiste que o ciclismo atual é muito mais limpo do que durante a época de Lance Armstrong e lembra que não houve grandes escândalos de doping no Tour de France desde então.

O jornalista destaca que ferramentas como o passaporte biológico, implantado em 2008, junto com o sistema Whereabouts (a obrigação dos atletas de elite de informar às autoridades antidoping sobre sua localização exata para permitir controles surpresa a qualquer momento do ano), dificultaram enormemente o doping organizado que caracterizou décadas anteriores.

No entanto, também alerta que ainda existem limitações.

“Como vimos muitas vezes antes, a ausência de positivos não significa necessariamente ausência de culpados.”

Para ilustrar, lembra o caso de Lance Armstrong, que durante anos defendeu publicamente ter superado centenas de controles antidoping antes de reconhecer posteriormente o sistema de doping organizado que utilizou.

Microdoses, controles noturnos e o desafio da inteligência artificial

No livro, Witts também aborda outras possíveis fraquezas da luta antidoping.

Entre elas, cita a dificuldade para detectar microdoses de EPO, a existência de determinadas faixas horárias com menor probabilidade de controles e as limitações orçamentárias dos programas antidoping internacionais.

Além disso, alerta para um desafio futuro: a possibilidade de que a inteligência artificial acelere o desenvolvimento de novos compostos dopantes a um ritmo superior ao que podem evoluir os métodos de detecção.

Apesar de apresentar cenários preocupantes, Witts deixa claro tanto no BikeRadar quanto no trecho do podcast que não existe evidência pública de um doping generalizado no ciclismo profissional atual.

Sua tese não pretende afirmar que o pelotão esteja dopando-se de forma sistemática, mas abrir o debate sobre as possíveis zonas cinzentas que ainda poderiam existir dentro do sistema antidoping moderno e sobre se as ferramentas atuais serão suficientes para enfrentar os desafios do futuro.

Com essa combinação de história, pesquisa e análise crítica, Dope: Como as drogas mudaram o esporte aponta para se tornar uma das publicações mais comentadas do ano entre aqueles que acompanham de perto o ciclismo profissional.

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