Um sutiã "maior" para ir mais rápido? A polêmica que chega ao Tour de France Femmes
Apenas algumas semanas depois que a UCI endureceu os controles sobre o equipamento durante o Tour de France masculino, uma nova polêmica ameaça se transferir agora para o Tour de France Femmes. Vários equipes do WorldTour feminino pediram aos comissários da União Ciclista Internacional que vigiassem um suposto recurso aerodinâmico utilizado por algumas corredoras nas contrarrelógios: o uso de enchimentos sob o maillot para aumentar artificialmente o volume do peito e melhorar a penetração no ar.
Um novo possível truque aerodinâmico no Tour de France Femmes: equipes denunciam o uso de enchimentos no sutiã
A denúncia foi publicada pelo meio neerlandês WielerFlits, que coleta as declarações de várias formações do pelotão feminino preocupadas com uma prática que consideram contrária ao regulamento da UCI e que, no entanto, mal estaria sendo controlada.
Um "chest fairing" oculto sob o maillot
Segundo a informação publicada, durante algumas contrarrelógios das últimas temporadas foi observado que determinadas ciclistas apresentam um volume na área do peito consideravelmente maior do que nas provas em linha. A suspeita é que algumas corredoras utilizam enchimentos dentro do sutiã esportivo ou sob a roupa de competição para modificar o fluxo de ar ao redor do corpo.
O objetivo seria criar o que em aerodinâmica é conhecido como um "chest fairing", uma superfície que suaviza a circulação do ar sobre o torso e reduz a resistência que gera a parte superior das pernas ao pedalar.
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As imagens de várias contrarrelógios, incluindo a dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 e provas recentes como o Giro d'Italia Women, foram analisadas por Bert Blocken, professor especializado em aerodinâmica da Heriot-Watt University (Escócia) e da LUT University (Finlândia), que considera que alguns desses casos "não são corretos" e que até mesmo em um deles o sistema estava "muito bem executado".
A ciência respalda que o benefício existe
A polêmica não nasce apenas de suspeitas visuais. Em 2024, Bert Blocken publicou junto a outros pesquisadores um estudo científico sobre os chest fairings em ciclistas e triatletas.

As simulações mostraram que uma forma aerodinâmica adequada sobre o peito pode reduzir a resistência ao avanço em até 3,6%, o que representa aproximadamente 0,78 segundos por quilômetro em uma contrarrelógio. Em um percurso de entre 20 e 30 quilômetros, o ganho pode se transformar em vários segundos, uma diferença suficiente para decidir uma vitória ou um pódio.

O mesmo grupo de pesquisa já havia demonstrado anteriormente que até mesmo colocar um bidon sob o maillot em provas de triatlo poderia oferecer vantagens aerodinâmicas significativas ao modificar o fluxo de ar em direção à área da pelve e das pernas.
O regulamento da UCI já o proíbe
Embora o debate tenha estourado agora, a normativa da UCI contempla esse tipo de modificações há bastante tempo.
O artigo 1.3.033 estabelece que a roupa somente pode cumprir sua função como vestimenta e não pode modificar artificialmente a morfologia do ciclista. Também proíbe o uso de espumas, plásticos, fitas adesivas ou outros elementos destinados a melhorar a aerodinâmica, permitindo apenas texturas integradas no próprio tecido com dimensões muito limitadas.
Se for detectada uma infração, o regulamento prevê a desclassificação imediata, a eliminação da classificação e sanções econômicas que podem variar entre 200 e 1.000 francos suíços, ou até superiores dependendo da gravidade do caso e do nível da competição.
As equipes pedem controles específicos
Segundo WielerFlits, várias equipes consideram que a solução seria simples: realizar uma inspeção imediatamente após a contrarrelógio, em uma área privada, por parte de uma comissária da UCI que pudesse verificar se as corredoras não escondem nenhum elemento sob o sutiã ou a roupa de competição.
A petição chega precisamente antes da contrarrelógio individual de 21 quilômetros entre Gevrey-Chambertin e Dijon, uma etapa em que qualquer melhoria aerodinâmica pode marcar diferenças importantes.
A UCI já endureceu os controles durante o Tour masculino
Não seria a primeira vez que a UCI atua contra elementos destinados a melhorar a aerodinâmica fora do material permitido. Durante o recente Tour de France 2026, o organismo internacional proibiu o uso dos denominados ice socks, os meias ou bolsas de gelo que alguns corredores colocavam sob o maillot para combater o calor.
Embora sua função principal fosse a refrigeração, a UCI argumentou que, ao modificar o perfil do corpo do ciclista, também poderiam gerar um benefício aerodinâmico contrário ao regulamento. A decisão provocou um intenso debate no início do Tour, especialmente pelas altas temperaturas registradas nas primeiras etapas disputadas em Barcelona.
Agora, o foco volta a se situar sobre o equipamento, mas desta vez no pelotão feminino. A grande incógnita será verificar se a UCI decide reforçar os controles durante a contrarrelógio do Tour de France Femmes ou se a polêmica fica apenas em uma denúncia apresentada por várias equipes rivais.