De um celeiro em Wisconsin a gigante mundial do ciclismo

Mountain Bike 11/02/26 11:08 Migue A.

Quando Dick Burke e Bevil Hogg se conheceram e começaram a falar sobre bicicletas, estavam fazendo história... só que não sabiam. Aquela conversa foi o germem do que, com o tempo, seria Trek, a marca que nasceu em um celeiro com o Made in USA como bandeira, e que agora está entre os maiores fabricantes do mundo. Sua fascinante história começa em um lugar de Wisconsin, no ano de 1976, e passa por alguns dos grandes acontecimentos que o ciclismo viveu nos últimos 50 anos. Quer conhecê-la? Vamos lá.

O 'celeiro vermelho' onde nasceu a Trek

Os inícios da Trek: do fracasso ao sucesso

Segundo o que John Burke, presidente da empresa, lembra hoje, tudo começou em um dia de 1974, quando ele tinha 12 anos, e seu pai disse que iriam comprar duas bicicletas para fazer uma excursão. Fariam isso na loja de um tal Bevil Hogg, um sul-africano que ele havia conhecido há pouco. Mas aqueles dois homens compartilhavam algo mais que a paixão pelas duas rodas. Também tinham em comum um sonho. Que, na época, ainda não era construir bicicletas, mas vendê-las. Queriam criar a primeira cadeia de venda de bicicletas em escala nacional nos Estados Unidos. E tentaram. Chegaram a ter duas.

Mas aquele primeiro negócio fracassou pouco tempo depois. No entanto, os dois amigos não desistiram; daquela aventura fracassada, tiraram uma grande intuição: não havia fabricantes de alta gama norte-americanos. Todas as bicicletas desse tipo que vendiam vinham da Europa (especialmente da Itália), e eles não viam razão para que isso tivesse que ser assim.

Trek bicicleta antiga

Assim, encontraram um espaço modesto não longe de suas casas, na pequena cidade de Waterloo, em Wisconsin, que na época tinha apenas 2.000 habitantes. Era um celeiro vermelho ao lado de um cruzamento de ferrovias, que antes havia servido como armazém de tapetes. E que, por sinal, hoje ainda é usado para fabricar os moldes dos atuais tubos de carbono da Trek.

No seu primeiro ano, 1976, contavam com apenas 5 funcionários e produziram exatamente 904 quadros (de aço e do tipo 'touring', vendidos por cerca de 300 dólares cada), aos quais adicionaram quatro letras: Trek. Embora estivesse prestes a ser chamado de outra maneira: Kestrel, que significa 'cernícalo', que era o nome que Hogg preferia. No entanto, Burke prevaleceu, que ouvia naquela curta palavra de origem africâner (como o próprio Hogg, por sinal) ecos de viagens, aventuras e liberdade. Não por acaso, 'trek' significa excursão ou caminhada longa e árdua em inglês... e a série 'Star Trek', que havia sido exibida alguns anos antes, a havia colocado na moda.

Trek bicicleta de estrada antiga

E, desta vez sim, tiveram tanto sucesso com seus quadros de alta qualidade que logo o celeiro ficou pequeno para eles. Em 1979, de fato, já faturavam mais de 2 milhões de dólares e tinham 12 modelos diferentes. Mas, como a Trek nunca quis renunciar às suas raízes, mudaram-se para apenas alguns quilômetros de lá, para o local onde ainda hoje têm sua sede mundial. Com a nova fábrica em funcionamento, em 1980, chegaram seus primeiros modelos de estrada, os 750 Pro e 950 Pro.

E também não demoraram muito para entrar no florescente negócio das mountain bikes, que já fazia sucesso na Califórnia, mas não tanto em Wisconsin. Foi em 1983 que o designer da Trek naqueles primeiros momentos, Tim Isaac, enviou um protótipo que havia criado para seu representante de vendas na Costa Oeste, para que o testasse. Aquele, sem hesitar, dirigiu-se ao mítico Whiskeytown Downhill de Redding e começou a competir contra as maiores figuras do esporte da época. Para sua surpresa, a nova bicicleta aguentou o tranco. E assim nasceu a 850, que se tornou um verdadeiro ícone até bem entrados os anos 90, quase sempre com seu vinil de 'USA'.

Quadros Trek

A Trek pioneira da fibra de carbono

Aqueles foram anos de enorme crescimento (suas cifras de vendas dobravam quase a cada 12 meses) e de intensa inovação, embora isso mesmo os tenha colocado à beira da falência: em 1985, estrearam o primeiro quadro de alumínio, um metal que ainda não dominavam, e que praticamente paralisou suas fábricas. "Sabíamos como fazer a primeira unidade, mas não a segunda", diria anos mais tarde John Burke, o filho do fundador, que naqueles anos teve que se envolver mais na marcha da empresa.

O fato é que saíram daquele atoleiro apostando na qualidade, mas sem esquecer totalmente a inovação. Naquela época havia um termo muito na moda, mas que ninguém sabia bem onde iria parar: fibra de carbono. Eles começaram a experimentar, e em 1986 apareceu seu modelo 2500, que já utilizava componentes desse material, e que deve ter estado entre os primeiros da indústria a fazê-lo.

Trek OCLV

Em 1989, lançaram seu primeiro quadro totalmente de carbono, um monocasco chamado 5000 de apenas 1,5 kg de peso que, como havia acontecido com o alumínio, lhes deu mais dores de cabeça do que alegrias. Projetado pela Trek, mas fabricado externamente, deu tantos problemas que, apenas um ano depois, teve que ser retirado de venda.

Mas foi um passo decisivo para o que mais tarde viria. Decidiram incluir a fibra de carbono em seu próprio processo de produção, e isso os levou até um de seus grandes feitos: o OCLV (Optimum Compaction, Low Void). Um processo desenvolvido por eles que está até mesmo acima dos padrões de qualidade da aviação. O resultado de tudo isso foi o quadro mais leve do mundo até a época: o da 5500, que pesava apenas 1,10 kg. Um ano depois, em 1993, foi a vez das primeiras mountain bikes de OCLV, as 9800 e 9900. Assim, começava o romance da Trek com o carbono.

Trek Mountain bikes

Das lojas próprias a Lance Armstrong

Em 1990, 80% das bicicletas que a Trek vendia já eram mountain bikes. Fazia isso através de quase 1.000 lojas de terceiros, mas então voltaram às suas origens: criaram sua própria loja, em Madison (Wisconsin). É o germem do que hoje é uma ampla cadeia de pontos de venda controlados pela empresa em todo os Estados Unidos. Naquela época, também estreou sua linha de roupas ciclísticas, Trek Wear, e começaram a direcionar seu olhar para a Europa, um mercado em que ainda não eram um grande jogador.

Já em 1996, eram o maior fabricante de bicicletas vendidas através de lojas especializadas em todo o mundo, e aproximadamente um terço de seus 350 milhões de dólares de receita vinham de fora dos Estados Unidos. Além disso, 80% de suas vendas eram de mountain bikes. Mas tudo isso começou a mudar em 1999, quando apareceu uma figura dominante no Tour de France: Lance Armstrong.

Trek Lance Armstrong

Não só foi o primeiro americano a ganhar com uma bicicleta norte-americana (Greg LeMond havia feito isso com marcas italianas e francesas), mas projetou a corrida gala para o futuro, porque foi a primeira bicicleta de quadro de carbono (uma 5500 OCLV, com certeza) a conseguir isso. E o Tour nunca mais voltaria a cair para o lado do aço ou do alumínio.

Certamente, a época de Armstrong mudou a cara do ciclismo mundial, e especialmente de uma marca tão ligada a ele como a Trek, que o acompanhou em seus 7 Tours. Embora hoje saibamos que ele conseguiu isso de maneira fraudulenta (a marca se desligou dele em 2012, quando o escândalo foi descoberto), é preciso pensar que isso não tira nada da inovação que suas bicicletas introduziram.

Trek recorde da hora de Jens Voigt

Os últimos anos: consolidação e projetos solidários

Embora os últimos anos possam ter sido mais tranquilos do que os anos 80, 90 e o início do século XXI, a verdade é que a Trek não deixou de buscar novas aventuras, como seu nome sugere. Desde 2009, entrou na cena do MTB com o Trek World Racing primeiro e o Trek Unbroken agora, tanto em XC quanto em downhill e enduro. Também conta com duas equipes de ciclocross (TFR CX e Baloise-Trek) e, desde 2014, é o patrocinador principal do Lidl-Trek de estrada, que contou em suas fileiras com nomes como Fabian Cancellara, Alberto Contador, mais recentemente, Vincenzo Nibali e agora tem Juan Ayuso como líder da equipe.

 

Além disso, se envolveu em muitos e diversos projetos solidários, como a National Interscholastic Cycling Association (NICA) dos Estados Unidos, para promover o uso da bicicleta entre as crianças; ou como World Bicycle Relief, com a qual colaborou desde seus inícios. Também tem a Trek Foundation, criada para "desenvolver trilhas e infraestrutura de ciclismo para uso público", protegendo esses lugares naturais do desenvolvimento urbanístico e industrial. E, por último, conta com um compromisso contra a desigualdade racial chamado All In, segundo o qual criará 1.000 empregos para pessoas negras nos próximos anos.

Mas claro, seu foco continua sendo a produção de bicicletas rápidas, confiáveis e de alta qualidade para todas as disciplinas ciclísticas. Suas Supercaliber, por exemplo, estão entre as melhores bicicletas da Copa do Mundo de MTB, enquanto a Madone não fica atrás no pelotão de estrada. E até criaram pequenas obras de arte como a que permitiu a Jens Voigt bater o Recorde da Hora em 2014, baseada na Speed Concept 9 Series. Já estamos esperando o próximo movimento desta empresa que passou de um celeiro a ser uma das maiores multinacionais do ciclismo, e de 5 funcionários a quase 2.000.

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