A UCI muda a sua estratégia contra o doping: "Devemos nos infiltrar no pelotão"

Autoestrada 17 ene. 2022 00:01 Guilherme

Agentes infiltrados, confidentes, métodos de inteligência.... Parece que estamos falando de um filme de máfia ou espionagem, mas a verdade é que todas essas coisas podem entrar no mundo do ciclismo profissional em um futuro próximo. E é que a UCI planeja mudar sua estratégia contra o doping, segundo sua diretora geral, a franco-marroquina Amina Lanaya. Com um objetivo claro: "Devemos nos infiltrar no pelotão", diz o braço direito de David Lappartient.

Amina Lanaya

Um diagnóstico sério: "Voltamos aos anos da Festina"

A número dois da União Ciclística Internacional, uma advogada de 41 anos que tem trabalhado durante muito tempo no serviço jurídico da organização, concedeu recentemente uma entrevista ao jornal francês Ouest-France. E, nela, se mostrou preocupada com as informações que lhe chegam de certos estamentos esportivos, referentes tanto ao doping tradicional quanto ao mecânico. "Quando descubro que estão inquietos e que têm a impressão de ter voltado aos anos da Festina... é assustador. Queremos evitar isso", diz Lanaya, que é a primeira mulher a ocupar esse cargo.

"Nós alertamos a Agência Mundial Antidoping (WADA) que temos indícios de que não estão indo em uma boa direção. Mas, de nossa parte, também não queremos deixar passar nada", diz a franco-marroquina. "Os controles, para mim, não são mais o principal instrumento na luta contra o doping. Inteligência e investigação são. Devemos trabalhar lado a lado com as autoridades policiais. E dar confiança a quem pode falar e nos dar informação."

Equipo Festina

Há apenas dois anos, os laboratórios melhoraram substancialmente o teste para detectar microdoses de EPO, e a UCI e a AMA também têm polemicas como a legalidade do uso de cetonas, sobre a qual já falaram ciclistas de elite como Guillaume Martin. Mas esta diretiva propõe ir muito mais longe.

“Talvez seja algo extremista em minha forma de pensar, mas acho que precisamos nos infiltrar no pelotão, infiltrar em certas equipes, pagar informantes… "Quando começar a haver positivos entre pessoas que antes eram consideradas intocáveis, "Radio Pelotão" funcionará ainda mais rápido no sentido contrário. É preciso bater na mesa, para que os trapaceiros sintam que estamos lá, continuamente atrás deles, e não apenas com três ou cinco controles por ano", conclui Lanaya.

Amina Lanaya y David Lappartient

As reações: "Somos atletas, não criminosos"

Como esperado, as palavras da 'número dois' da UCI levantaram bastante polemica dentro do pelotão, e a primeira resposta não demorou a chegar. E foi da Itália, onde Gianni Bugno (que hoje é presidente da CPA, o principal sindicato dos corredores) concedeu uma entrevista à La Gazzetta dello Sport na qual usa o termo "provocação" e expressa seu descontentamento com o órgão com sede em Genebra: "Afirmações como essas, realizadas pela federação internacional, não caem bem", diz ele.

Aquele que foi grande rival de Miguel Induráin nos anos 90 esclarece, sim, que fala "a título pessoal", mais que sua faceta institucional. "Parecia que a questão do doping estava a caminho de ser solucionada, mas se ações como essas são valorizadas, significa que eles não estão convencidos. O ciclismo é o único esporte que tem dado o máximo para esclarecer as coisas, e os corredores são os que estão mais controlados. Essa nova proposta (ou provocação, se quisermos chamar assim) só me pareceria lógico se houvesse suspeitas", destaca.

Além disso, o ex-ciclista transalpino confessa que está chateado porque, embora o CPA faça parte do sistema de trabalho da UCI, eles não foram consultados sobre essa suposta estratégia. "Uma pessoa não pode dizer tudo o que quer, antes que seja acordado entre as partes. Teremos que estudar essas declarações, e talvez possamos pedir esclarecimentos. São atletas, não criminosos", conclui Bugno.

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