“É como ter uma cobra na sua frente”: Sammie Maxwell fala pela primeira vez sobre o problema que a afastou da Copa do Mundo
A decisão de Sammie Maxwell de se afastar da competição após ganhar a geral da Copa do Mundo XCO 2025 foi uma das grandes surpresas do último inverno. Então se falou da necessidade de descansar, recuperar energias e passar mais tempo com sua família após uma temporada especialmente exigente. Agora, coincidentemente com seu retorno à Copa do Mundo em Les Gets, a neozelandesa decidiu contar publicamente que precisava tratar um transtorno alimentar com o qual convive há anos.
Sammie Maxwell fala abertamente sobre o transtorno alimentar que a levou a se afastar da Copa do Mundo
Maxwell estava no melhor momento esportivo de sua carreira quando decidiu parar. Após conquistar a geral da Copa do Mundo XCO 2025, no início deste ano anunciou que tiraria um longo descanso e se afastaria da competição internacional.
A explicação pública de então se concentrou principalmente no enorme desgaste físico e mental da temporada e em seu desejo de retornar à Nova Zelândia, estar com sua família e recuperar o equilíbrio. Mas havia uma questão muito mais profunda que Maxwell preferiu explicar agora.

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A corredora do Decathlon Ford leva lidando com um transtorno alimentar desde os 15 anos e durante esse período fora das corridas pôde enfrentar o problema de uma maneira diferente.
"Muita gente não entende os transtornos alimentares porque pensa: como pode alguém não querer comer? E não se trata simplesmente de querer estar magra, é uma resposta psicológica. Quando vemos comida é como ter uma cobra na frente", explica Maxwell no vídeo publicado junto à Copa do Mundo.
A neozelandesa garante que durante muito tempo havia recebido ajuda psicológica, mas não o tratamento que precisava para compreender e modificar essa resposta de medo associada à comida.
"Durante muito tempo nunca recebi o tratamento que precisava para reprogramar essa resposta de medo", reconhece.
Maxwell utiliza uma imagem muito gráfica para descrever como viveu o problema. Diz imaginar seu transtorno como uma espécie de pequeno "gremlin", semelhante a Gollum, que aparece precisamente quando tem a comida na frente. Por mais que racionalmente queira agir de outra maneira, explica, o medo acaba se impondo e a bloqueando.
Compreender de onde procedia essa reação e aprender a identificá-la tem sido uma das chaves desses últimos meses.
Afastar-se do ciclismo sem estabelecer uma data para retornar
Uma parte fundamental do processo foi precisamente não transformar o descanso em outra fase de preparação para voltar a competir.
Quando anunciou sua retirada temporária, Maxwell não sabia quando retornaria. E agora reconhece que precisava que fosse assim.
"Para mim era realmente importante ir embora pensando: não sei quando vou voltar. Não havia nenhum prazo, porque se eu tivesse feito isso com a expectativa de retornar às corridas, acho que não teria conseguido explorar realmente como era minha vida sem o ciclismo".
Assim, sua ausência não foi simplesmente uma pré-temporada extraordinariamente longa. Durante alguns meses deixou de colocar as corridas como objetivo em torno do qual organizar sua recuperação.
O processo esteve longe de ser simples.
"Acho que foram os oito meses mais difíceis da minha vida, mas também foram realmente gratificantes", assegura.
Maxwell compara até mesmo essa evolução com uma sessão especialmente dura de treinamento: quanto maior era a dificuldade, maior era depois a satisfação de verificar seus progressos.
Finalmente recebeu o aval de seu entorno profissional e médico para retornar. A possibilidade de fazê-lo apenas durante a última parte do calendário também oferecia um cenário diferente do de enfrentar uma temporada completa: competir, descobrir quais dificuldades voltam a aparecer nesse ambiente e colocar em prática tudo o que aprendeu durante esses meses.
"Sinto que encontrei a chave simplesmente alimentando meu corpo"
A mudança não parece ter se limitado ao aspecto psicológico. Maxwell afirma que também está percebendo consequências importantes em seu desempenho.
A campeã da Copa do Mundo lembra que no final de 2025 seu corpo começava a acusar seriamente o desgaste. Agora a sensação é praticamente oposta.
"No ano passado, no final da temporada, meu corpo estava se desmoronando um pouco. É muito agradável chegar agora ao final da temporada e me sentir realmente forte. De fato, estou mais em forma do que no ano passado".

Isso não significa que espera retornar imediatamente ao nível competitivo com o qual terminou 2025. Após tantos meses sem corridas, Maxwell reconhece que ainda precisa recuperar automatismos e se acostumar novamente a uma intensidade que dificilmente pode ser reproduzida treinando.
Mas seus dados físicos estão lhe dando motivos para ser otimista. Segundo explica, nos aquecimentos prévios às corridas está registrando cifras de potência cerca de 10% superiores.
"Sinto que encontrei a chave simplesmente alimentando meu corpo e me concentrando muito na força, potência e sustentabilidade".
E seu retorno já ofereceu alguns sinais interessantes.
No Short Track de Les Gets sofreu uma queda durante a largada e posteriormente um furo quando já havia completado uma grande remontada até o grupo da frente. Antes da avaria havia demonstrado que o ritmo continua lá, chegando novamente até as melhores após o incidente inicial. Finalmente a vitória foi para Sina Frei após um ataque na última volta.
Além do resultado, Maxwell parece enfrentar esta segunda etapa de sua carreira com uma perspectiva diferente. Já não estabelece prazos imediatos para alcançar seu máximo nível e aceita que o processo pode ser longo.
"Sinto que posso continuar progredindo. E se isso levar alguns anos, tudo bem. Mas sinto que estou realmente no caminho certo para ter os recursos que preciso para ser a melhor versão de mim mesma".
Após conquistar uma Copa do Mundo com apenas 23 anos, Maxwell retornou à competição ainda sendo uma das grandes referências do XCO internacional. Mas suas palavras deixam claro que o principal objetivo desses oito meses não era voltar a ganhar corridas, mas encontrar uma forma mais sustentável de poder continuar competindo no mais alto nível.