O VO2max de Pogacar estaria perto do limite humano
Um novo estudo científico coloca novamente Tadej Pogačar em um território fisiológico reservado até agora para a teoria. A pesquisa, publicada na revista International Journal of Sports Physiology and Performance, estima que o esloveno teria precisado de um VO₂max entre 90 e 102 ml/kg/min, com uma média próxima a 96 ml/kg/min, para produzir alguns de seus melhores desempenhos em alta montanha. Segundo os autores, dependendo das suposições utilizadas no modelo, Pogačar poderia até se aproximar da simbólica barreira de 100 ml/kg/min, um nível nunca medido oficialmente em um ciclista.
Um novo estudo situa o VO₂max de Tadej Pogačar à beira dos 100 ml/kg/min
Este trabalho chega apenas alguns meses depois do estudo do professor norueguês Ole Kristian Berg, publicado no Journal of Science & Cycling, que já estimou um VO₂max próximo a 96 ml/kg/min após analisar as exibições de Pogačar no Tour de France. Agora, o próprio Berg assina uma nova pesquisa junto a Pedro L. Valenzuela e Sebastian Sitko, na qual o modelo é aperfeiçoado e ampliado para tentar estimar com maior precisão a capacidade aeróbica do quatro vezes vencedor do Tour.
Um modelo validado antes de aplicá-lo a Pogačar
Os pesquisadores começaram desenvolvendo um modelo para estimar a potência a partir da velocidade de ascensão, incorporando variáveis como a massa do ciclista, a densidade do ar e as características de cada subida. Para verificar sua confiabilidade, recorreram a dados públicos de outros corredores que sim haviam compartilhado seus registros de potência, obtendo uma margem de erro aproximada de 10 watts.
O próximo passo foi converter essas estimativas de potência em um consumo máximo de oxigênio. Para isso, utilizaram conhecimentos amplamente aceitos sobre a relação entre a potência sustentável durante esforços de entre 20 e 40 minutos, o percentual do VO₂max ao qual um ciclista profissional pode competir e a perda de desempenho provocada pela altitude.
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Antes de analisar Pogačar, o modelo foi testado com Chris Froome. Aplicando-o a uma de suas atuações mais lembradas no Tour de France 2015, os autores estimaram um VO₂max de 82 a 89 ml/kg/min, uma faixa que coincide com o valor de aproximadamente 85 ml/kg/min obtido pelo britânico em testes fisiológicos reais.
Mais de 440 watts durante até 40 minutos
Uma vez validado o método, os pesquisadores analisaram quatro das atuações mais destacadas de Pogačar nas duas últimas temporadas. Segundo seus cálculos, o esloveno sustentou mais de 440 watts durante esforços compreendidos entre 17 e 40 minutos, realizados ainda em subidas situadas entre 723 e 1.444 metros de altitude.

Com esses dados, o modelo conclui que Pogačar teria precisado de um VO₂max situado entre 90 e 102 ml/kg/min, com uma estimativa média de 96 ml/kg/min.
A eficiência pode mudar o resultado
Os próprios autores insistem que esses números não provêm de um teste de esforço realizado no corredor da UAE Team Emirates-XRG, mas de estimativas baseadas em modelos fisiológicos. Por isso, analisaram como mudam os resultados ao modificar algumas variáveis.
O fator com maior influência foi a eficiência mecânica do ciclista. Se Pogačar fosse extraordinariamente eficiente (25%), seu VO₂max estimado cairia para cerca de 88 ml/kg/min. Em contrapartida, com uma eficiência mais baixa (21%), o número subiria para 105 ml/kg/min.
A altitude também desempenha um papel importante. O estudo parte da hipótese de que um corredor tão acostumado a treinar em altitude quase não perde desempenho com a elevação. No entanto, se essa penalização fosse maior, o modelo conclui que o VO₂max necessário para sustentar essas mesmas potências superaria os 100 ml/kg/min.
Até a data, o valor mais alto medido oficialmente em um ciclista corresponde ao norueguês Oskar Svendsen, que alcançou 97,5 ml/kg/min durante um teste de esforço realizado em 2012. Precisamente por isso, as estimativas que situam Pogačar em torno de 96 ml/kg/min, e até contemplam a possibilidade de superar os 100 ml/kg/min em determinados cenários, dão uma ideia da magnitude do desempenho que lhe atribuem esses modelos fisiológicos.
Os pesquisadores ressaltam que todos esses números dependem de suposições fisiológicas e não substituem uma medição direta em laboratório. No entanto, consideram que mesmo utilizando hipóteses conservadoras o resultado aponta que Tadej Pogačar possui uma capacidade aeróbica extraordinária, provavelmente entre as maiores já estimadas para um atleta de resistência.