"Foi a vez que cheguei mais ao limite": Van der Poel e Pogacar transformam o final do Tour em um espetáculo para a história
Foram necessárias décadas para que o Tour de France encontrasse a fórmula para acabar com uma de suas tradições mais criticadas: a última etapa convertida em um passeio cerimonial até os Campos Elíseos. A inclusão da subida a Montmartre no ano passado já foi um sucesso, mas a edição de 2026 confirmou definitivamente o acerto da organização. E não só pelo percurso, mas porque os protagonistas decidiram correr até o último metro.
Van der Poel transforma Paris em uma obra de arte e assina uma das vitórias mais memoráveis do Tour
Se em 2025 foi Tadej Pogačar quem, com o Tour já decidido, se lançou a disputar a vitória contra Wout van Aert, desta vez o esloveno voltou a oferecer espetáculo ao lado de Mathieu van der Poel. Ambos se afastaram na última ascensão a Montmartre e colaboraram até o final, mesmo quando o próprio Pogačar já intuía que suas chances de ganhar eram mínimas se chegasse ao sprint junto ao neerlandês.
Foi mais uma demonstração da forma de entender o ciclismo de dois corredores que raramente especulam. Enquanto o pelotão se lançava a toda velocidade por trás, nenhum deixou de revezar. O cenário parecia saído de um filme. Javier Ares resumiu durante a transmissão assegurando que o desfecho tinha roteiro cinematográfico, enquanto Carlos de Andrés confessava que, pela primeira vez em muitos anos, tinha autênticas ganas de comentar uma última etapa do Tour, acostumado como estava a finais onde as estatísticas e as anedotas ocupavam mais tempo que a própria corrida.

Um final que vinha sendo preparado há um ano
RECOMENDADO
Van der Poel ganha em Paris com o sprint mais agonizante de sua carreira
Van der Poel, Pogacar e Evenepoel se encontram em Montmartre para decidir o final em Paris: horários e chaves da última etapa do Tour 2026
Pogacar já é eterno: quinto Tour e um lugar entre os maiores da história
Eddy Merckx: “Se alguém pode ganhar Giro, Tour e Vuelta no mesmo ano, é Pogacar”
Valero e Natalia Fischer sobem ao pódio na Copa do Mundo XCM da Floresta Negra: a geral será decidida em Girona
A realidade é que boa parte daquele desfecho começou a ser escrita doze meses antes. Van der Poel não pôde disputar o final do Tour de 2025 depois de abandonar por uma pneumonia e viu do sofá de sua casa como Van Aert conquistava a etapa atacando precisamente em Montmartre.
Depois da vitória, o neerlandês explicou em declarações à NOS que aquele momento ficou gravado em sua cabeça. “Estive pensando nisso por um ano. No ano passado estava doente no sofá vendo como Wout ganhava aqui e então pensei que no ano seguinte iria dar tudo por conquistar esta etapa”, confessou.
E cumpriu exatamente esse plano.
O sprint mais agonizante de toda sua carreira
Os últimos metros foram um autêntico exercício de sobrevivência. Van der Poel chegou à reta final após deixar para trás quem ele mesmo considera “talvez o melhor ciclista da história”, em referência a Pogačar, e ainda teve que resistir ao retorno dos melhores velocistas do pelotão.
O próprio campeão reconheceu que nunca havia levado seu corpo tão ao limite.
“Acho que todo mundo viu que posso chegar muito profundo em um final, mas desta vez provavelmente foi a vez que mais ao limite cheguei em toda minha carreira”, explicou.
NAIL BITING!
— Tour de France™ (@LeTour) July 26, 2026
EPIQUE !#TDF2026 | @Continental_fr pic.twitter.com/v27ldNmfFr
Com apenas 500 metros para a meta, deu a vitória como perdida, mas decidiu se esvaziar completamente.
“Pensei que tudo havia terminado. Com 500 metros pela frente, achei que já não tinha nada a perder, abaixei a cabeça e fui o mais forte que pude até a linha de chegada”, relatou.
A imagem da chegada resume perfeitamente esse esforço. Van der Poel espremia cada músculo de seu corpo até o extremo. Depois, até brincou dizendo que nos últimos metros estava empurrando “até com o dedo grande do pé”.
Uma vitória decidida por meia roda
Em apenas alguns segundos, aconteceu absolutamente de tudo. Enquanto Van der Poel agonizava para manter alguns centímetros de vantagem, Jasper Philipsen também fez um trabalho decisivo, entrando justo à frente de Mads Pedersen e dificultando a recuperação do dinamarquês. Finalmente, o neerlandês cruzou a meta com apenas meia roda de margem.
Após mais de quatro horas de corrida e depois de ter protagonizado o ataque decisivo ao lado de Pogačar, Van der Poel ainda foi capaz de desenvolver uma potência explosiva extraordinária no sprint final, uma combinação de resistência e explosividade que muito poucos corredores são capazes de oferecer após semelhante desgaste.
A emoção também aflorou depois da chegada, algo pouco habitual em um corredor que construiu um palmarés repleto de Monumentos, títulos mundiais e vitórias históricas.
“Já não costumo me emocionar muito, mas hoje sim me emocionei um pouco”, reconheceu antes de situar este triunfo entre os três melhores de toda sua carreira.
Porque além do prestígio de ganhar nos Campos Elíseos, esta vitória tem um significado especial. Foi sonhada durante um ano inteiro, executada com precisão no cenário perfeito e culminada com o sprint mais profundo de toda sua trajetória. Uma autêntica obra de arte ciclista que merece ser vista uma e outra vez.