“Antes, com 6 W/kg, você era um dos bons, agora você é apenas mais um do time”: Barguil explica como o ciclismo mudou em apenas alguns anos
O ciclismo profissional se transformou a uma velocidade difícil de imaginar, mesmo para aqueles que o viveram de dentro. Warren Barguil, vencedor de duas etapas do Tour de France e do maillot de montanha em 2017, afirma que o salto de nível foi tão grande que os valores de desempenho que há menos de uma década serviam para lutar pelas melhores posições hoje mal alcançam para trabalhar a serviço de um líder. Assim ele explicou em uma entrevista concedida ao L’Équipe durante o dia de descanso do Tour.

Warren Barguil acredita que o ciclismo mudou rápido demais: “As pessoas não percebem”
O francês, que disputa seu duodécimo Tour e que reconhece que provavelmente será o último de sua carreira, utiliza um dado muito concreto para ilustrar essa evolução. Em sua vitória no Col d’Izoard em 2017, produziu cerca de 5,9 W/kg, uma cifra que então estava entre as melhores do pelotão. No entanto, sustenta que o nível atual aumentou cerca de um watt por quilo.
“As pessoas não percebem o quanto o nível subiu. Minha geração viu essa lacuna se abrir. Agora chegam jovens capazes de manter 7 W/kg durante 20 minutos. Antes, se você fazia 6 W/kg, era um bom corredor. Agora você é apenas mais um companheiro de equipe”, afirma Barguil.
Do ciclismo por diversão ao treinamento completamente estruturado
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Para Barguil, a mudança não se limita aos números. Também mudou a forma como os jovens chegam ao ciclismo profissional.
O francês lembra que quando era júnior, treinava principalmente por diversão, buscando se medir com seus amigos mais do que otimizar cada sessão. Em contrapartida, considera que as novas gerações seguem programas totalmente planejados desde idades muito precoces.
Como exemplo, ele cita o caso de seu pai, também treinador, que decidiu parar de trabalhar com corredores juniores ao perceber que, para manter o nível competitivo atual, teria que exigir deles uma carga de treinamento que ele mesmo considerava excessiva.
Ele até afirma que hoje alguns corredores de categorias inferiores querem realizar saídas de quatro horas durante seus dias de descanso, uma situação que considera preocupante.
“O ciclismo vai rápido demais”
Barguil também acredita que o aumento do desempenho se reflete na própria competição. Explica que neste Tour as fugas se formam a um ritmo tão elevado que muitos corredores chegam perto de seus melhores registros de potência simplesmente tentando entrar na escapada.
Segundo relata, em uma das etapas montanhosas foram necessários cerca de 80 quilômetros para consolidar a fuga do dia e muitos ciclistas estiveram muito perto de bater seus melhores valores de 20 minutos durante esse esforço inicial.
Para o veterano francês, essa intensidade permanente explica por que as velocidades médias continuam crescendo ano após ano e por que o ciclismo atual “já não se parece com o de alguns anos atrás”.

Sua preocupação está nos jovens
Além do desempenho, Barguil acredita que essa evolução pode ter consequências importantes para aqueles que tentam abrir caminho no profissionalismo.
O francês cita como exemplo Paul Seixas, de apenas 19 anos e uma das revelações do Tour, embora insista que se trata de um caso excepcional e que não deveria se tornar a norma. Em sua opinião, muitos jovens acabam se queimando física e mentalmente tentando alcançar um nível cada vez mais exigente.
Por isso, ele até propõe que a UCI estude limitar a participação dos corredores mais jovens nas corridas do WorldTour para reduzir essa pressão e evitar que cada vez mais talentos abandonem o esporte antes de consolidar suas carreiras.